Quando mudamos de casa, meu filho queria levar uma coisa do quarto antigo: a cama alta. Eu entendi o desejo. Meu marido e eu tínhamos construído aquela estrutura com as próprias mãos, pensando no espaço de cima para brincar. Embaixo, ficaria o lugar de dormir.
Na prática, ele não dormia ali. Dormia comigo, e o quarto se tornou principalmente um lugar de brincadeiras. A estrutura que havíamos imaginado para uma rotina acabou participando de outra. Funcionava, mas de um jeito diferente do que planejamos.
O quarto que não podia repetir o anterior
Na casa onde moramos agora, alugada, refazer a cama alta exigiria muitas fixações e uma estrutura difícil de acomodar. A janela ocupa boa parte de uma parede; nas outras, porta e armário limitam as possibilidades. Conversamos sobre o que ele queria preservar, mas aquela solução não cabia neste quarto.
A cama ficou no chão, junto à parede. Confesso que não gosto tanto dessa disposição, mas escolhemos assim para deixar mais espaço no chão para sentar e brincar. É ali que acontece a magia que, na casa anterior, acontecia no alto: peças de Lego espalhadas, corridas de carrinhos e pistas que muitas vezes criamos com materiais recicláveis.
Eu sabia o que ele procurava naquela cama alta: o lúdico. Aquele quarto podia virar castelo e se transformar de muitas maneiras na imaginação dele. Por isso que, no quarto atual, deixei que fizesse mais escolhas sobre os temas e objetos que queria por perto.
Um quarto com escolhas que são dele
No quarto atual, não há um tema único. Ele escolheu a bandeira, os adesivos, os objetos e interesses que quis deixar à vista. Tem carros, brincadeiras e referências diferentes dividindo o mesmo espaço. Algumas escolhas talvez não fossem as minhas se eu estivesse compondo o ambiente sozinha. Mas esse é justamente um quarto vivido por ele.
Eu também fiz uma escolha afetiva. Certa vez, perguntei qual tinha sido o dia mais feliz da vida dele. Ele falou de uma viagem que fizemos. Reuni fotos daquele momento em um quadro e o coloquei perto da entrada do quarto. Queria que essa lembrança tivesse um lugar na vida cotidiana, ao lado das coisas que ele próprio escolhe mostrar.

O que funciona e o que ainda me incomoda
O espaço livre no meio do quarto funciona. O organizador colorido, que comprei depois da mudança, também: ele usa bastante os brinquedos que ficam ali.
Já as prateleiras que encontramos no quarto são altas para ele. Os objetos estão expostos, mas nem sempre ao alcance ou à altura dos seus olhos. Ainda gostaria de repensar a maneira de guardar parte dos brinquedos maiores, mas que ele ainda usa com muita frequencia. São detalhes que observo no uso, quando vejo o que ele procura sozinho, o que pede para pegar e o que acaba esquecido.
A ausência de um tema único me transmite certa sensação de bagunça, junto com todos os brinquedos ao mesmo tempo. E sim, ele brinca com todos com muita frequência, ele é uma criança que brinca bastante. Talvez seja exatamente aí que minha experiência profissional e minha experiência como mãe se encontram, nem sempre confortavelmente. Consigo perceber ajustes que tornariam o quarto mais harmonioso visualmente e mais acessível para ele. Ao mesmo tempo, me pergunto se essa mistura não é justamente parte da graça. Esse é o mundo dele, e no mundo dele cabem muitas coisas diferentes.
Até onde devo conduzir essas escolhas? E quando preciso abrir espaço para que ele experimente o ambiente à sua maneira?
De quem é, afinal, o quarto infantil?
Projetar para uma criança envolve decisões dos adultos: segurança, circulação, móveis, limites da casa e da rotina. O ambiente também participa da forma como ela aprende a usar, cuidar e se apropriar de um lugar. Mas a criança precisa poder reconhecer algo de si ali. Isso pode aparecer em escolhas que mudam depressa, em temas que não combinam entre si, em objetos que um adulto talvez guardasse e que, para ela, precisam estar por perto.
Olhar para os dois quartos do meu filho tem me lembrado que planejar um ambiente não é determinar tudo o que vai acontecer nele. No primeiro, criamos um espaço com tema de bombeiro, muito presente no dia a dia dele mas talvez muito limitado. A área que imaginamos para dormir acabou sendo usada sobretudo para brincar. No segundo, não foi possível repetir a cama alta que ele queria, mas outras formas de ocupar o quarto estão surgindo.
Ainda quero fazer mudanças. Quando comentei com ele que iríamos mexer no quarto, sua primeira reação foi: “Mas e meus adesivos?”
Para mim, essa pergunta diz muito. Enquanto penso no que poderia melhorar, ele me mostra o que já faz daquele quarto um lugar seu.
Uma parte importante de pensar um quarto infantil é observar o que a criança faz no espaço e considerar o que ela deseja, é isso que faço em meus projetos. Mas o meu grande aprendizado aqui é aceitar que nem todas as respostas vêm antes da criança começar a viver ali, e que sim, haverão mudanças de escolhas e as vezes, muito mais rápidas do que imaginamos.
Se você está pensando em transformar o quarto de uma criança, vale começar observando como ela usa o espaço e ouvindo o que gostaria de manter. Na Consultoria de Interiores, podemos pensar juntos em escolhas que façam sentido para a criança e para a rotina da casa.






